domingo, 13 de março de 2011

A primeira mulher: a criação de Pandora em "Trabalhos e dias"

Passagem de Trabalhos e dias, de Hesíodo, a ser comparado com o jambo de Semônides que apresenta distintas raças femininas oriundas de certos animais:

Com raiva, a ele dirigiu-se Zeus junta-nuvens:
"Iapetionida, superas a todos no conhecer ideias,
regozijas após o fogo roubar e meu juízo iludir,
para ti mesmo e varões vindouros, grande desgraça.
Eu, a eles, em troca do fogo, darei um mal com que todos
se deleitarão no ânimo, seu mal abraçando."
Assim falou, e gargalhou o pai de varões e deuses.
A Hefesto ordenou, ao mui glorioso, bem rápido
terra molhar com água, inserir voz humana
e força e à visão de uma deusa imortal assemelhá-la,
bela aparência amável de uma virgem; e a Atena,
ensinar as tarefas, tecer a trama mui artificiosa;
e à dourada Afrodite, graça verter em volta da cabeça,
anseio aflitivo e preocupações devora-membro;
inserir um espírito canino e um modo finório
a Hermes impôs, o condutor matador-da-serpente.
Assim falou, e eles obedeceram a Zeus, senhor Cronida.
De pronto a partir da terra moldou o glorioso duas-curvas,
tal qual respeitável virgem devido aos planos de Zeus;
cinturou e adornou-a a deusa, Atena olhos-de-coruja;
em volta dela, as deusas Graças e a senhora Persuasão
corrente dourada puseram na pele; coroaram-na
as Estações bela-coma com flores primaveris;
todo o adorno ao seu corpo ajustou Palas Atena.
Em seu peito, o condutor matador-da-serpente
mentiras, histórias solertes e um modo finório
arranjou por conta do plano do ribombante Zeus; som
colocou o arauto dos deuses, e nomeou essa mulher
Pandora, porque todos que têm casas olímpias
deram-na como um dom, desgraça dos varões come-grão.
Mas após o íngreme ardil intangível completarem,
a Epimeteu o pai enviou o glorioso Matador-da-serpente
levando o dom, o veloz mensageiro dos deuses. Epimeteu
não refletiu no que lhe dissera Prometeu, nunca um dom
aceitar de Zeus Olímpio, mas enviar de volta
no futuro para não se tornar um mal aos mortais;
ele, após receber, quando já tinha o mal, percebeu.
De fato, antes vivia sobre a terra a tribo de homens
à parte sem males e sem o duro labor
e doenças aflitivas, as que perdição dão aos varões.
[Rápido, na desgraça, os mortais envelhecem.]
Mas a mulher com as mãos a grande tampa do cântaro tirou
e espalhou, e para os homens armou agruras funestas.
Somente lá mesmo Esperança, na casa inquebrável,
ficou, dentro do cântaro sob as bordas, e não pela porta
afora voou, pois antes deixou tombar a tampa da jarra
por conta do plano do porta-égide, Zeus junta-nuvens.
Outras mil coisas funestas entre os homens vagam,
pois plena a terra está de males, pleno, o mar:
doenças para os homens há de dia, outras, de noite,
espontâneas, zanzam, males aos homens levando
em silêncio, pois o som tirou o astuto Zeus.
Assim, não há como escapar da ideia de Zeus.

Sinopse descritiva das convenções de hospitalidade na poesia homérica

Cf. Steve REECE (1993) The Stranger’s Welcome: Oral Theory and the Aesthetics of the Homeric Hospitality Scene, Ann Arbor, p. 6-7.

I. Menina na fonte; menino no caminho
II. Chegada no destino

III. Descrição das cercanias
a. Da residência: a descrição da morada de Odisseu se dá somente no seu retorno (xvii).
b. Da pessoa que se busca e/ou de suas atividades: Telêmaco está pensando no pai. Portanto, Telêmaco+Odisseu x pretendentes desde o início do poema
c. Dos outros e/ou de suas atividades. Aqui está a ênfase em i. Os pretendentes, ao longo da Odisséia, estão sempre comendo ou jogando. Está implícita a condenação dos pretendentes por não se darem conta da presença de um estranho no umbral, ou seja, eles se comportam e não comportam como anfitriões.

IV. Cão na porta
V. Espera no pórtico ou umbral: em ix, Odisseu e seus companheiros não esperam por Polifemo no umbral.
VI. Súplica: indica a situação difícil de quem chega.

VII. Recepção

a. Anfitrião percebe o visitante: convenção homérica de que o mais novo filho do senhor percebe um visitante (Reece 48). Reece 18 assinala que na cabana de Eumeu são os cães que primeiro vêem Odisseu; isso prefigura o perigo de Odisseu no seu palácio, onde chamará os pretendentes de cães (xxii).
b. Anfitrião hesita na oferta de hospitalidade: xeinos é um termo ambivalente, já que pode significar desde aquele que devemos tratar como philos até um estranho perigoso.

c. Anfitrião levanta do seu assento
d. Anfitrião aproxima-se do visitante
e. Anfitrião cuida dos cavalos do visitante
f. Anfitrião leva o visitante pelas mãos
g. Anfitrião saúda o visitante

h. Anfitrião toma a lança do visitante: esse gesto não é muito comum em Homero, mas ele pode se referir a um costume histórico [você desarma um inimigo potencial; Reece 20]. Gesto bastante significativo em i.
i. Anfitrião leva o visitante para dentro: sinaliza um certo tipo de contrato, ou seja, aquele que chega será bem tratado enquanto lá estiver. Compare as chegadas de Odisseu e Telêmaco na cabana de Eumeu: somente o primeiro é conduzido para dentro.

VIII. Assento: a qualidade de Telêmaco como anfitrião é sublinhada pelo fato de colocar uma poltrona para Atena e uma cadeira para si mesmo.

IX. Banquete
a. Preparação
b. Consumação: geralmente um verso formular.
c. Conclusão: também geralmente apenas um verso.

X. Bebida pós-jantar

XI. Identificação
a. Anfitrião questiona o visitante: um bom anfitrião interroga o visitante somente após a refeição; é vergonhoso romper essa tradição.
b. Visitante revela sua identidade: geralmente inicia dizendo que suas informações serão detalhadas e precisas. Muita variação entre as cenas. Um dos temas centrais da Odisséia é o reconhecimento. Telêmaco e Odisseu são às vezes reconhecidos pelos seus anfitriões.

XII. Troca de informações
XIII. Diversão
A diversão em i é irônica [como entre os feácios]: o canto trata da ira de Atena [que tinha sido um hóspede] e do retorno dos aqueus [ os pretendentes esperam que Odisseu nunca mais volte, mas ele voltará].

XIV. Visitante abençoa o anfitrião
XV. Visitante compartilha de um sacrifício ou libação
XVI. Visitante pede permissão para ir dormir
Com frequência o anfitrião é tão zeloso que o hóspede precisa lembrar que está na hora do sono.

XVII. Cama
XVIII. Banho
Geralmente dado por servas, mas também pela senhora da casa (Helena, Circe, Calipso) e uma vez pela princesa virgem (iii: filha de Nestor). Não costuma ser algo casual, portanto.

XIX. Anfitrião detém o visitante
XX. Presente para o visitante
XXI. Refeição de partida
XXII. Libação de partida
XXIII. Benção de despedida
XXIV. Augúrio na partida e interpretação
XV. Condução do visitante ao seu próximo destino

Duplicação: um elemento da técnica do bardo oral

Irene de Jong, baseando-se na análise de Bernard Fenik, assim define a duplicação ("doublet"): "uma cena que, em sua estrutura, repete outra cena".

Segundo Adrian Kelly, trata-se de um dos principais princípios poéticos da narrativa oral, ou seja, de uma composição que é feita durante a sua performance mesma.

A duplicação é um recurso particularmente efetivo numa narrativa mais longa, em especial, nos poemas monumentais que são a Ilíada e a Odisseia. Um exemplo odisseico:

Telêmaco, depois ter sido recebido por Menelau em Esparta (canto 4) e ainda sem ter revelado sua identidade, começa a chorar ao ouvir seu anfitrião falar de Odisseu. Ele tenta esconder de Menelau o choro, que pondera sobre o evento, mas sua identidade é imediatamente revelada quando Helena adentra o salão e, sem prestar atenção nas lágrimas, revela a identidade do hóspede.

Algo bastante parecido também ocorre a Odisseu quando na corte feácia (canto 8). Há vários elementos em comum entre o modo como Odisseu é recebido pelo rei Alcínoo e a recepção de Telêmaco em Esparta. Esses elementos, porém, podem ter feito parte de uma cena típica completamente independente de nossa Odisseia, a recepção de um hóspede seguindo regras de etiqueta.

O que não é comum nessas cenas, e que liga, de modo sugestivo para o leitor do poema como um todo, as recepções de Odisseu e Telêmaco, é que a identidade do hóspede não só se coloca como uma problema para o anfitrião, mas que esse problema é acentuado pelas lágrimas vertidas pelo hóspede no momento em que ele ouve uma história.

Dessa forma, numa duplicação, sentidos adicionais são construídos pelo leitor ao contrapôr as cenas em paralelo.

FENIK, Bernard (1974) Studies in the Odyssey. Hermes Einzelschriften v. 30. Wiesbaden: Franz Steiner

JONG, Irene J. F. de (2001) A narratological commentary on the Odyssey. Cambridge : Cambridge University Press

KELLY, Adrian (2008) "Performance and rivalry: Homer, Odysseus, and Hesiod" In: REVERMANN, Martin; WILSON, Peter (org.) Performance, iconography, reception: studies in honour of Oliver Taplin. Oxford: Oxford University Press

sábado, 12 de março de 2011

Lei de Jörgensen: a ignorância humana acerca de uma intervenção divina na poesia épica


O nome dessa "lei" deriva do nome do autor do artigo, de 1904, que a definiu: na poesia épica, o narrador tem a onisciência dada pela Musa, mas o mesmo não vale para suas personagens.

Essas, ao contrário dos deuses, ao se referirem a um evento, não podem saber se um deus está por trás dos acontecimentos nem de que deus se trata, a não ser que tenha sido informada por alguém que sabe (por ex., um adivinho) ou por um deus.

A personagem, porém, pode expressar que acredita tratar-se da intervenção de um deus; nesse caso, usa indistintamente e como sinônimos daimôn (divindade), theos (deus), theoi (deuses) e Zeus – ou então atribui a ação a um deus que por ela não foi responsável.

Uma exceção para essa regra são os casos em que há grande possibilidade de acerto por se tratar de um acontecimento que diz respeito a uma área de atuação específica de um deus: no canto 1 da Ilíada, Aquiles parece saber que Apolo é o responsável pela praga, não só pela ligação entre o deus e esse tipo de morte, mas também porque seu sacerdote foi desonrado. Nada disso, porém, é explicitado no texto.

Cf. Jim MARKS (2008) Zeus in the Odyssey. Hellenic Studies 31. Cambridge, Mass. – London: Center for Hellenic Studies, p. 41.

quarta-feira, 9 de março de 2011

"Efêmero" na poesia jâmbica

O espírito humano (noos) não é imutável, vale dizer, divino, mas determinado pelas circunstâncias, que, por sua vez, podem variar dia a dia.

Diz Arquíloco em fragmentos que talvez pertencessem a um mesmo poema e, eventualmente, vinham em sequência:

131 W
O ânimo dos homens mortais, Glauco, filho de Leptino,
torna-se tal qual Zeus o conduz durante um dia

132 W
e refletem de acordo com os eventos com que se deparam

Por isso, como diz Semônides, vivemos como o gado, somos "efêmeros", onde não se deve entender o adjetivo como se referindo ao tempo limitado e curto que dura a vida dos homens, mas em referência às condições que mudam dia a dia. No limite extremo, como se lê em Semônides, o homem não tem noos algum.

É assim que Fränkel entende o sentido do termo: "sujeito às vicissitudes do dia".

Semônides 1 West

Compare o poema do Semônides com a introdução da resposta que Odisseu dá ao pretendente "bonzinho" Anfínomo no canto 18 da Odisseia:

Eis que Antínoo pôs-lhe ao lado um grande estômago,
cheio de gordura e sangue; e Anfínomo
tirou dois pães da cesta e ao lado pôs;
com cálice dourado, cumprimentou-o e disse:
"Sê feliz, pai estrangeiro: tenhas, ainda que no futuro,
fortuna; agora, de fato, estás preso a muitos males."
Respondendo, disse Odisseu muita-astúcia:
"Anfínomo, realmente me pareces ser inteligente.
Tens um pai de tanto valor, pois ouvi a nobre fama,
que Niso de Dulíquion é bom e rico;
dele dizem que nasceste, semelhante a decente varão.
Por isso te direi, e tu compreende e me escuta:
nada mais débil a terra nutre que o homem
entre tudo que sobre a terra respira e circula.
Nunca alguém pensa que um mal sofrerá no futuro
enquanto sucesso deuses ofertam e os joelhos se mexem;
mas quando o funesto deuses venturosos completam,
também isso, a contragosto, suporta com ânimo resistente.
É tal a mente dos homens sobre-a-terra
como o dia que conduz o pai de varões e deuses.
Também eu, um dia, seria fortunado entre os varões,
e fiz muita coisa iníqua, cedendo à força e ao vigor,
confiante em meu pai e em meus irmãos.
Por isso jamais um varão ignore as regras,
mas, quieto, suporte os dons de deuses, o que derem.
Que iniquidades vejo os pretendentes maquinar:
as posses devastam e desonram a esposa
do varão que não mais, penso, dos seus e do solo pátrio,
longo tempo, longe ficará; está bem perto. Mas a ti um deus
para casa acompanhe; que não te depares com ele
quando retornar para sua terra pátria:
creio que, não sem sangue, se distinguirão
os pretendentes e ele, após entrar sob o seu teto."
Isso disse e, após libar, bebeu o vinho meloso,
e de volta pôs o cálice nas mãos do ordenador de tropa.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ian Morris: A revolução do séc. 8 [CAG]

Defende que há poucos momentos na história mundial antes da revolução industrial que testemunharam uma mudança tão grande em 100 anos (800-700). O modelo de Snodgrass (1980: revolução estrutural) foi criticado nos anos 1990, mas, em linhas gerais, permanece: demografia, formação do estado, conflito social.
Pano de fundo: a Idade Obscura (Dark Age). A vida na Grécia nesse período (1100-750) foi mais miserável que em qualquer outra época na antiguidade.

Economia

Demografia: a população da Grécia (bacia do Egeu e colônias) provavelmente dobrou no séc. 8 (condições climáticas devem ter contribuído bastante entre 850 e 750). Como os problemas advindos disso foram solucionados?

Respostas: produção mais intensa nas terras agrícolas. Crescimento da irrigação e da arboricultura. Aumento na área usada para plantação.
Exemplo clássico de colonização ‘externa’ é Esparta, que conquistou a Lacônia (séc. 9) e a Messênia (provavelmente em 720) e transformou a população em helotas. Colonização: é possível que já em 700 trigo siciliano estivesse sendo exportado para o Egeu.

Padrão de vida: tamanho médio das casas entre 45-50 m2 (sécs. 8-7), crescendo nos sécs. seguintes. Banheiras reaparecem no séc. 7 após terem desaparecido no fim da Idade de Bronze.

Tendências econômicas gerais: produção mais intensa e extensa e reorganizada; elevadíssimo e contínuo aumento do consumo agregado e per capita.

Estruturas sociais

Formação do estado
Criação de comunidades de alguma forma mais organizadas e centralizadas. Não podemos ter certeza sobre a organização política referente a territórios maiores anterior ao séc. 8: possível presença de confederações, envolvendo vários chefes locais, com propósitos de defesa, religiosos e talvez comerciais.

Morris adota a definição de estado de Tilly 1992: "organizações controladoras da coerção distintas de grupos baseados na família ou no parentesco e que exercem uma prioridade clara em algumas esferas sobre todas as outras formas de organização no interior de territórios substanciais. O termo, portanto, inclui cidades-estado, impérios, teocracias e muitas outras formas de governo, mas exclui tribos, famílias e igrejas".

São muitos os desafios que as mudanças verificadas no período colocaram para os líderes, por ex., a definição das fronteiras sobre as quais seria responsável uma determinada organização política e a definição dos poderes locais em relação àqueles supralocais. Conflitos, claro, foram inevitáveis.
A guerra certamente deve ter sido o catalisador imediato: conselhos de basileis deveriam poder enfrentar vizinhos mais efetivos. A Ilíada e a Odisseia podem ser lidas como histórias que alertam para o custo de conflitos internos à elite.

As formas de organização política variam. Houve uma tendência geral de tornar os velhos basileis regionais chefes nominais ou oficiais anuais eleitos a partir de um colégio aristocrático. Esparta, com seus dois reis, era uma exceção.
As instituições do estado foram sempre fracas; o estado, pobre. Na guerra, por ex., cada indivíduo era responsável por suas armas; as fortificações eram simples; não existe armada antes de 550. De forma geral, o estado fazia pouco.

Igualitarismo
"A força do igualitarismo masculino e solidariedade comunal em face àqueles que poderiam tornar-se líderes foi a mais atípica e a mais importante característica da sociedade arcaica."

Um novo sistema ritual formou-se no Egeu central em torno de 1000: funerais notáveis dos ricos; adoração dos deuses, em grande parte, desloca-se para dentro da casa dos chefes. A expansão a partir de 900 desafiou esse sistema e, em 750, ele estava acabado. Novos rituais, mais abertos, competitivos e variados, floresceram: grandes cemitérios para toda a população; proliferação de santuários a céu aberto.

Aparentemente, só no Egeu, em todo o Mediterrâneo, as novas condições do séc. 8 não produziram reis fortes, mas colegiados oligárquicos. Em 650, todo aquele que se tornasse rei era um tyrannos, um usurpador ilegítimo. Morris explica esse trajeto rumo à cidade masculina, não à realeza, por meio de 4 fatores:

História: em 750, tradição de 250 anos de uma elite homogênea: barreira ideológica para a centralização do poder.
Economia: na Grécia arcaica não havia homens muito ricos; se houve, não deixou sinal de sua riqueza.
Guerra: a impressão é que Homero contou histórias de como grandes heróis deveriam agir em contraste com a realidade contemporânea de exércitos com infantarias em massa.
Religião: quase total ausência, no Egeu, de monarquias divinas e castas de sacerdotes. Separação entre poder secular e divino entre 750 e 700.

Com a fragmentação da aristocracia da Época Obscura no séc. 8, apelos aos pobres tornaram-se cada vez mais importantes. Para nenhum membro da elite se sobressair em relação aos outros, produziu-se o colapso da fronteira entre elite e não-elite. Com isso, criou-se uma nova versão de cidadão e de polis.

"Os conflitos do final do séc. 8 transformaram velhas noções sobre classe, gênero, etnicidade, passado, oriente e deuses em duas ideologias largamente opostas que eu chamei de ‘média’ (middling) e ‘elitista’ [um modelo bem mais simples que a realidade] "

O núcleo da idelogia média era de que todos os homens locais eram mais ou menos iguais, e todo o resto (mulheres, populações orientais, heróis...) eram completamente diferente. Os elitistas, ao contrário, defendiam sua diferença por meio de conexões divinas, orientais e heróicas. Os poetas médios eram ricos cantando para ricos, não protodemocratas.

Cultura

Historiadores da arte geralmente falam do séc. 8 tardio como um período orientalizante, mas o desenvolvimento mais significativo foi a reutilização de técnicas do Oriente Próximo como resposta aos problemas colocados pelos conflitos entre as ideologias média e elitista.

Alfabeto grego, desenvolvido em torno de 750. Morris defende que já em torno de 700 os poemas homéricos e hesiódicos teriam sido escritos, concordando com Powell que a principal razão para o desenvolvimento do alfabeto foi para fixar por escrito relatos sobre o passado, em uma época em que a relação entre passado e presente tornou-se agudamente importante.

As primeiras cenas humanas nos vasos que conhecemos talvez sejam heroicizantes (Snodgrass). Muito dos mitos gregos também podem ser localizado no Oriente Próximo.

domingo, 6 de março de 2011

Catherine Morgan: O início da Idade do Ferro (=iIF) [CAG]

Período entre 1200 e 700.

Após os palácios
Fase pós-palaciana (Heládico tardio IIIC) da vida urbana micênica tardia. Presença de uma elite super rica, cujos funerais os apresentam como líderes guerreiros. No iIF, há uma diluição do poder com a proliferação de basileis locais, cuja autoridade, porém, não nos é clara. "Geralmente, não sabemos se o status era herdado ou conquistado por meios econômicos, militares ou outros em um sistema de ‘grande homem’."

Sepultamento e sociedade
Mudanças nos hábitos: popularização do sepultamento individual e adoção da cremação em detrimento da inumação. Cremação permitia exibição e celebração prolongada junto ao túmulo, chamando a atenção para o morto e sua família.

Histórias de povoamento
Não se acredita mais que tenha havida uma enorme diminuição da população e que só a partir do séc. 8 começaram a se formar polis como unidades maiores.
Riqueza de Lefkandi atingiu um pico em 950, atestado por duas sepulturas monumentais (Toumba). Sugestões heroicizantes, homéricas.

Mobilidade, migração, comércio
Até pouco tempo, a interpretação de certos mitos serviu de base para enfatizar-se a migração como típica do período (sobretudo, a invasão dórica). Houve mudanças de nível de população em algumas áreas, mas foram em menor número, menos dramáticas e não típicas do período como se imaginou.
Os "demiourgoi" homéricos, viajantes, são difíceis de achar nos vestígios arqueológicos; mais comuns são as oficinas fixas. É certo, porém, que especialistas itinerantes operaram na Grécia no período.
Comércio diverge em escala e talvez em natureza da Idade de Bronze, mas a Grécia certamente não estava isolada. Havia trocas de presentes entre as elites; os comerciantes itinerários, porém, são mais difíceis de identificar. Ânforas para transporte de mercadorias.

Subsistência
Em boa parte da Grécia, provavelmente o mundo descrito por Hesíodo em Trabalhos. Aspectos seculares e sagrados das atividades econômicas estavam entrelaçados.

Santuários
Antes de 750, sítios ao ar livre, sem construções, na Grécia central e sul, o que não implica atividades temporalmente e espacialmente desorganizadas. As oferendas estavam presentes, em número crescente; grande diferença entre as dádivas de pobres e ricos. Imagens antropomórficas em grande escala só reaparecem no séc. 8.

Metalurgia, culto, armamentos
Aquisição da tecnologia de aproveitamento do ferro no Egeu através de Chipre, no séc. 11, após a queda do império hitita, que guardara o segredo. Usos principais: armas e oferendas votivas. Ferro é um metal mais complicado de trabalhar que o bronze e demanda mais tempo. Dificilmente era barato.
Durante a maior parte do período em questão, quase nenhuma armadura ou muito leve era exigida do guerreiro, somente um escudo leve, uma espada e um par de lanças ou arco e flecha. A partir do último quarto do séc. 8 a panóplia hoplítica começa lentamente a aparecer e a refinar-se (hoje em dia, praticamente não se fala mais de reforma hoplítica).

Expansão no séc. 8
Nesse momento, reconhece-se vários elementos típicos da IA: uma ampla cadeia de santuários e templos, cidades em expansão, escrita alfabética, povoamentos além mar. A época é amiúde vista como uma "renascença grega", termo que não é muito preciso. Uma elemento que tem modificado esse quadro é o exame do aumento populacional em centros rurais e urbanos.

Além mar grego
Povoamentos permanentes aumentaram dramaticamente com o início da colonização do oeste nas últimas décadas do séc. 8. O séc. 12 foi um período de intenso contato com a Itália, especialmente a Apúlia. Fundação de Pithekoussai por eubeus, o que consolidou o intercâmbio com uma rede bem estabelecida de fenícios, sardos e vários grupos italiotas. É nesse ambiente que os gregos devem ter aprendido a escrever sua língua usando uma versão adaptada do alfabeto fenício. Outros lugares para essa transferência ter ocorrido são Al Mina, Creta, Rodes, cidades continentais (Atenas) ou da Eubeia.
Ligações com o leste eram ainda mais ricas e complexas. Não se sabe se Al Mina tinha uma população grega sazonal ou permanente nem a partir de quando. Pouco provável que tenha sido fundada por gregos.

Vida na cidade
"Tanto no caso da expansão do povoamento envolver uma mudança escalar na intensidade quando na simples extensão através de uma área maior, o resultado foi uma necessidade sem precedentes de lidar com exigências de moradias próximas."
"Oráculos foram um meio importante de ganhar a aprovação para estratégias novas e litigiosas." Uso da escrita: publicação de leis; demarcação de propriedades; identificação de oferendas votivas.
Arquitetura pública e planejamento, especialmente das primeiras ágoras. Criação de novos santuários.

Elites no séc. 8
Na maior parte da Grécia, o gasto com funerais cresceu marcadamente a partir de 750. Não se acha muita evidência física para o espaço das famílias da elite no seio das comunidades em expansão. É na esfera religiosa que o poder era exercido.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Jambo: Martin L. West

Nesse post, um resumo parcial do texto de Martin L. West (deixei de lado, por ex., a discussão sobre Hipônax e os exemplos desse poeta) sobre o jambo que está em seu livro Sudies in Greek Elegy and Iambus (Berlin: de Gruyter, 1974), p. 22-39. Meu resumo beneficia-se de uma tradução do texto que fiz com Fernando Rodrigues, mas que continua inédita.

O termo grego íambos não implica necessariamente um metro ou tipo métrico; o metro jâmbico obteve seu nome por ser particularmente característico dos íamboi e não o contrário.

A invectiva era vista como a marca mais evidente do gênero. Há uma grande variedade de assuntos nos fragmentos que os antigos, em algum momento, denominaram jambos. Para Dover, a característica comum dos jambos pode ter sido o tipo de ocasião para o qual eles foram compostos. A etimologia de íambos é desconhecida, mas tem sido comparada com dithúrambos, thríambos e íthumbos. Todas essas três palavras são associadas ao culto de Dioniso.

Iambe, personagem mítica: aparece no Hino a Deméter, 202, como a mulher que animou Deméter com gracejos abusivos depois de um período de tristeza e abstinência. Não há dúvida que as khleuai ("gracejos") de Iambe são protótipos míticos de alguma espécie de zombaria ritual de um tipo provavelmente cômico, insultante e indecente, de onde deve ter nascido o nome íamboi.

Deméter e Dioniso naturalmente tendem e ser associados, na religião grega, como divindades que controlam a produção da terra. Ambos possuem conexão com Paros e com Arquíloco.

A palavra íambos aparece pela primeira vez em Arquíloco fr. 215: "e não me preocupo nem com jambos nem com diversões", o que indica que, mais que poemas, trata-se de ocasiões.

West sugere que se pode reconhecer o jambo de forma mais confiante nos tipos de assunto dos quais os elegíacos nunca tratariam, isto é, poemas com sexualidade explícita, com invectivas que vão além do gracejo engenhoso encontrado na elegia e com outros tipos de vulgaridade. Em Arquíloco, concentrados nos trímetros jâmbicos e nos epodos.

Destaque para os ataques a Licambes e suas filhas. West sugere que Licambes e suas libidinosas filhas não foram contemporâneos de Arquíloco, mas personagens típicos de um entretenimento tradicional com alguma (talvez esquecida) base ritual. West sugere, como uma espécie de base sociológica da prática, o insulto contra os aristocratas poderosos.

Se Licambes e suas filhas não foram pessoas reais, então Arquíloco estava encenando um papel. Talvez fosse parte desse mesmo papel que ele se apresentasse como um bastardo, filho de uma escrava chamada Enipo (fr. 295); o nome, com suas conexões de enipaí (censuras), é suspeitamente apto para a mãe de um poeta jâmbico.

Há muitas referências nos fragmentos jâmbicos à comida e aos gêneros alimentícios.

Não gosto de um líder grande, pernas afastadas,
orgulhoso dos cachos, bigode aparado.
Não, meu seria pequeno e, quanto às pernas, torto
de se ver, firme marchador nos pés, pleno de coração.
(Arquíloco 114 W)

A sátira a figuras públicas presente nesse fragmento pode indicar que ele tenha sido considerada um jambo, mas que tenha sido uma elegia não é algo que se possa descartar. O o fato de o fragmento estar em tetrâmetros talvez indique que poderia estar agrupado com os comentários mais sérios sobre eventos públicos frequentes na poesia de Arquíloco nesse metro e que presumivelmente não é jâmbica.
Comentários políticos sérios em jambos são encontrados em Sólon.

Outro tipo de poema encontrado entre os antigos poetas jâmbicos pode ser chamado filosófico, por ex., Simônides 1 e 7. O primeiro tem uma temática que pode ser encontrada em uma elegia. O outro tem uma possibilidade um pouco maior de ser um jambo genuíno.

Algumas observações gerais sobre o jambo jônico: monólogo poético ou monódia de estrutura simples. Podem aparecer conversas, mas algumas vezes é evidente que elas são relatadas por um narrador. Metros característicos: trímetros jâmbicos e tetrâmetros trocaicos, puros ou coliâmbicos, ou combinações epódicas. A persona loquens (o eu poético) se dirige algumas vezes para o próprio público, algumas vezes a alguém específico, um amigo ou o sujeito de zombaria ou vilipêndio. Denuncia-se ou se ridiculariza pessoas particulares ou tipos universais, de um modo que divirta e entretenha, ou se conta excitantes aventuras sexuais ou outras coisas baixas. O cantor de um epodo poderia ser acompanhado por um instrumento musical.

O gênero atingiu seu auge no sétimo e no sexto séculos. [Daqui até o final de seu texto, West explora as conexões entre o jambo e a comédia ática.]

Carol J. Thomas: O mundo mediterrâneo no início da Idade do Ferro (=iIF) [Companion Archaic...]


O Mar Mediterrâneo
Importante lembrar que o estreito de Gibraltar tem só 24km de extensão no seu trecho mais estreito e que a Sicília encontra-se a apenas 160km da costa africana. O conhecimento e uso do vento é essencial para a navegação. Pode ser definido como a região da oliveira.

Regiões e povos do Mediterrâneo na Idade de Ferro
A imagem dessa época não é mais soturna como aquela influenciada por Hesíodo, Trabalhos 176-8. Embora as monarquias da Idade de Bronze tenham entrado em colapso e a população diminuído, houve uma certa continuidade cultural. Navegação também continuou, embora reduzida. De forma geral, porém, a Grécia permaneceu isolada. Posteriormente, deu-se a expansão e o contato com boa parte do mundo mediterrâneo.

Anatólia
Millawanda (*2a metade do 2o milênio; assim conhecida pelos hititas), refundada como Mileto. Imigrantes do continente grego, mas o Egeu não foi um lago grego antes da IA (=idade arcaica). Reino frígio no interior (*Midas); lídio (Sárdis, capital). Relações cordiais dos gregos com ambos. Os lícios, mais ao sul, eram bem mais isolados.

Sudoeste da Europa
Trácios (guerreiros; cavalos; vinho); de forma geral, equivale à moderna Bulgária. Citas (contato só na IA). Macedônios: chegada em torno de 700.

Mediterrâneo oriental
Grande atividade dos fenícios também no 1o milênio. Principais navegadores do iIF. É possível que tenham estado presentes no Med. Central e Ocidental já no sec. 10. Expansão do império assírio no início do milênio. Interação possível com os gregos em Al Mina no sec. 9. Para navegadores do Egeu, Líbia era um local atrativo para fundar colônias; costa levantina, para comércio; Egito, para atuar como mercenários.

Adriático oriental
Eubeus podem ter sido os primeiros a realizar a viagem cruzando o Adriático. Entre os continentais, destaque para os coríntios. Presença coríntia em Ítaca em 780. Ilíria (moderna Albânia). Epiro: intercâmbio com os gregos começou cedo; santuário a Zeus em Dodona.

Mediterrâneo central
Eubeus investigando o Mar Tirreno no sec. 9. Mesmo antes, familiar aos navegadores do Egeu. Gregos não penetraram no interior. Os ocupantes eram uma colcha de retalhos de povos; mais poderosos eram os etruscos.
Pithekoussai (ilha perto de Nápoles): parece ser o mais antigo povoamento grego no Mediterr. central; fundado em 780. Importação de cerâmica grega pelos etruscos.

Sicília e Sardenha
Sicília: ponto estratégico e fértil (cesta de pão do Mediterrâneo).

Mediterrâneo ocidental
Celtas

Navegação grega no iDF
O Mediterrâneo não era difícil de ser navegado, uma vez conhecidas suas correntes, ventos e obstáculos. Navegação foi usada vários milênios antes da Idade de Bronze. Intenso comércio no Mediterrâneo Or. na 2a metade do 2o milênio. Há alguns sinais de navegação entre os sécs. 11-9.

Em Homero, os navios são de dois tamanhos: menores (20 remos); maiores (50). Aperfeiçoamento do deque na Idade Geométrica (=IG; ca. 900-700). Navegação, portanto, era realizada no iIF. De fato, muitos falam em um fase de "pré-colonização" antes do estabelecimento de povoamentos definitivos. Lembremo-nos que a Grécia continental é um território relativamente pobre (montanhoso; planícies para agricultura são raras; metais e madeira escassos em boa parte do território).