sábado, 26 de março de 2011

Teógnis e a cidade com problemas: cidadãos ou líderes vis?

A mim Faraone (2008) convence que as passagens da Theognidea abaixo (respectivamente, 39-48 e 53-62) perfazem duas estrofes onde a segunda foi composta como uma resposta à primeira num contexto simposial. Se na primeira o problema da cidade são seus líderes, na segunda o problema está em um grupo de cidadãos.

Cirno, esta cidade está grávida, e temo que dê a luz a um varão
  endireitador da nossa vil desmedida.
Esses cidadãos ainda são prudentes, mas os líderes
  se voltaram a uma grande queda rumo à vileza.
Nunca a uma cidade, Cirno, bons varões destruíram,
  mas quando apraz aos vis serem desmedidos,
aniquilam o povo e conferem sentenças aos criminosos
  por conta de lucros privados e poder,
não espere que essa cidade muito tempo fique estável,
  mesmo que agora jaza em muita tranquilidade...

Cirno, esta cidade ainda é cidade, mas outro é o povo,
  os que antes nem costumes nem leis conheciam,
mas em torno das costelas couro de cabras usavam
  e fora da cidade como cervos moravam.
Agora são valorosos, Polypaida; quem antes era distinto,
  agora é reles. Quem suportaria ver isso?
Enganam-se mutuamente e riem uns dos outros,
  não conhecendo as marcas dos vis nem dos valorosos.
Desses cidadãos, Polypaida, não tornes nenhum teu amigo
  do peito por conta de alguma necessidade.

Tematicamente, o conjuto das duas estrofes relaciona-se, tematicamente (cf. 'referencialidade tradicional') a Sólon 4 W.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Dísticos elegíacos na 'Andrômaca' de Eurípides!

Abaixo, um trecho em dísticos elegíacos (a única nas tragédias supérstites) da Andrômaca de Eurípides, onde a viúva de Heitor lamenta sua sorte presente como escrava de gregos. A maioria dos intérpretes concorda hoje com a tese de Denys Page (1936) de que essa passagem é baseada num tipo de canto comum no norte do Peloponeso, um lamento em versos elegíacos, ao qual se referiria o termo que só tardiamente aparece nas nossas fontes, elegos.

À escarpada Ílion, Paris, não como bodas mas perdição,
  levou Helena, boa para o leito, para o tálamo.
Por causa dela, Troia, a ti, por lança e fogo capturada,
  tomou o Ares veloz, mil-naus, da Hélade
e ao marido meu, eu, infeliz, Heitor, a quem em volta do muro
  o filho da marinha Tétis arrastou, conduzindo o carro;
eu mesma do tálamo fui levada à orla do mar,
  jogando a odiosa escravidão em volta da fronte.
Muita lágrima me desceu pela face ao deixar
  cidade, tálamo e marido na poeira.

Ai de mim, eu, infeliz, por que deveria olhar para a luz
  como escrava de Hermíone? Molestada por ela, suplicante
junto a essa estátua da deusa, os braços em volta jogando,
  esvaio-me como uma fonte borbotante na pedra.

Outros textos da bibliografia que discutem a passagem são Nagy (2009) e Faraone (2008). Eu somente traduzi o trecho em dísticos elegíacos, mas a passagem deve ser pensada a partir do contexto onde está embutida. Agradeço ao Rafael, que me indicou o instigante texto do Nagy.

Tirteu 11 West (8 Gentili-Prato)

Vamos, pois da cepa do invencível Héracles sois,
  coragem, Zeus ainda não virou o pescoço:
nem multidão de homens temei, nem fugi;
  direto rumo à vanguarda, o varão tenha seu escudo,
odiosa a vida considerando e da morte as negras
  sinas, amigas, como os raios de sol.
Pois sabeis que os feitos de Ares muito-choro são infernais,
  bem aprendestes a índole da penosa guerra,
com fugitivos e perseguidores estivestes,
  jovens, e de ambos vos saciastes.

De fato, os que ousam, ficando um junto ao outro,
  dirigir-se ao corpo-a-corpo, à vanguarda,
a minoria morre, e salvam a tropa atrás;
  de varões que se afastam, toda a excelência se extingue.
Ninguém, um dia, um relato completo faria de cada um,
  de todos os males, se sofrer o vexame, que o varão atingem.
É aflitivo rasgar por trás as costas
  do varão em fuga na guerra hostil.
É vexatório o corpo postado na poeira
  no dorso, atrás, por ponta de lança atingido.

Vamos, cada um, pernas afastadas, aguente com ambos os pés
  firme sobre a terra, o lábio com os dentes mordendo,
pernas, coxas abaixo, peito e ombros
  com o ventre do largo escudo tendo coberto;
na mão direita empunhe a firme lança,
  e mova a crina assombrosa sobre a cabeça:
realizando feitos ponderosos, que ele aprenda a guerrear,
  e, com o escudo, não finque o pé longe dos dardos.

Vamos, cada um, achegando-se no corpo-a-corpo com longa lança,
  ou mate, com espada ferindo, o varão hostil,
pé junto a pé tendo posto e, contra escudo, escudo apoiado,
  em adição crina contra crina, elmo contra elmo,
peito contra peito, e, próximo, combata o varão,
  após pegar o cabo da espada ou a grande lança.
E vós, mal armados, cada um sob o escudo de outro
  agachando-se, atirai grandes penedos,
com lanças polidas acertando os mesmos,
  perto dos bem armados, firmes de pé.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Tirteu 10 West (6/7 Gentili-Prato)

É belo, com efeito, ter morrido quem na vanguarda caiu,
   o varão valoroso que pela sua pátria combate;
um homem deixar sua cidade e copiosos campos,
   e mendigar, nada incomoda mais,
vagando com sua cara mãe e o velho pai,
   com seus filhos pequenos e a esposa legítima:
odioso será entre aqueles que encontrar,
   à carência cedendo e à hedionda pobreza,
envergonha a linhagem e desmente a radiante formosura,
   e desonra completa e vilania seguem.

Se assim , vê, pelo homem que vaga consideração alguma
   existe, nem respeito pela linhagem futura,
com coragem por essa terra peleemos e pelos filhos
   morramos, não mais preocupados com nossas vidas.
Jovens, peleai ficando um ao lado do outro,
   não começai infame fuga nem pânico,
mas produzi grande e bravo ânimo no espírito,
   e não amai a vida ao combater varões.
Aos mais antigos, cujos joelhos nunca foram leves,
   deixando para trás – os anciãos –, não fugi.

Sim, isto é feio, tombar entre os da vanguarda
   e jazer, varão mais velho, diante dos jovens,
com branca cabeça e grisalha barba,
   o bravo ânimo exalando na poeira,
com ensanguentadas vergonhas nas caras mãos –
   isso é feio e indigno de se ver com os olhos –
e a pele desnuda: aos jovens de todo convém,
   enquanto tem a radiante flor da desejável juventude,
para os varões admirável de se ver, desejável para as mulheres
   enquanto vivo, e belo após cair entre os da vanguarda.

Mas cada um, pernas afastadas, aguente com ambos os pés
   firme sobre a terra, o lábio com os dentes mordendo.

Por que um rei arrisca sua vida?

No canto 12, o lício Sarpédon, filho de Zeus, instiga seu companheiro para a batalha desse modo:

"Glauco, por que então somos sobremodo honrados (tetimêmestha)
com um assento, carne e cálices cheios
na Lícia, e todos nos veem como deuses?
Dispomos de grande domínio (temenos) nas margens do Xantos,
belo, com pomar e lavoura carregada de trigo.
Por isso agora carece, entre os lícios da vanguarda,
fincar o pé e encarar o combate abrasador,
para que assim falem lícios com sólida armadura:
‘De fato, não sem glória (aklees) chefiam a Lícia
nosso reis, comem gordas ovelhas
e seleto vinho meloso; mas também há força
distinta, pois pelejam entre os lícios da vanguarda.’
Querido, se pudéssemos os dois escapar dessa guerra
e fôssemos para sempre sem velhice e imortais,
eu mesmo não pelejaria entre os da linha de frente
nem te enviaria à peleja gloriosa (kudianeira).
Mas agora, pois as sinas de morte estão sobre nós,
milhares, das quais é impossível mortal fugir ou escapar –
vamos: ou estenderemos triunfo (eukhos) a alguém, ou ele a nós."

Sarpédon faz uma pergunta acerca dos fundamentos da timê, ou seja, dos privilégios materiais dos reis. Trata-se de uma pergunta retórica, ou seja, há uma resposta óbvia para Sarpédon, Glauco e o público dos poemas? O texto não deixa claro. Certamente Sarpédon diz que tal timê tem um preço: a luta na linha de frente. Entretanto, na sequência, ele diz que tal atitude tem uma outra motivação: a de que os lícios falem bem deles, repetindo que os reis possuem kleos.

O texto sugere que há um círculo (vicioso?) entre o status do rei e seus privilégios – o rei come bem porque é rei e é rei porque come bem –, sendo que somente na guerra algo distinto e valoroso é percebido. A sequência de imagens talvez sugira que timê e kleos sejam distintos, já que uma interpretação possível do trecho é que a única razão para participar da guerra é a imortalidade implicada no kleos, com o que fica subentendido, adicionalmente, que, mesmo sem a participação em guerras, as timai do rei permanecem.

Tendo em vista, porém, que não parece haver um valor em si na labuta guerreira, o texto não nos consegue convencer que o kleos seja uma grande compensação pela morte que a todos ronda.

Uma excelente discussão sobre a passagem da Ilíada é o artigo de Teodoro Assunção (2008) "Boa comida em banquetes como razão para arriscar a vida: o discurso de Sarpédon a Glauco (Ilíada XII 310-28)". Nuntius Antiquus 1: 1-17

Pietro Pucci (1997: 56) é o único intérprete que conheço que nota que o texto é estranho: não é estabelecida a conexão lógica precisa entre a timê e a consciência do dever. O texto desvia da timê e evoca os olhares que os lícios dirigem ao rei. A dificuldade nesse ponto é que a questão "por que somos tão honrados..." não é respondida pela sugestão direta que honras régias trazem o dever de lutar, mas a questão é transformada na evocação das expectativas dos lícios, que não esperam que o rei se comporte bravamente em virtude de sua timê, mas devido ao seu kleos, quer dizer, sua imagem heróica régia.

Pucci (p. 57ss.) explora as particularidades sintáticas da passagem e a menção irônica dos banquetes reais para chegar à conclusão de que não podemos precisar o que Sarpédon pensa das suspeitas dos lícios. As premissas da Ilíada, entretanto, sugerem que ele considera um dever fazer com que suas atitudes correspondam à imagem que dele se tem. O que ele sente é aidôs. Sarpédon considera um dever consubstancializar a posteriori o retrato que têm dele os lícios. No final das contas, seu alvo de comportar-se a posteriori como seu retrato prescreve é gratuito. Ele não produz razões. Determinantes são apenas as premissas ideológicas da poesia épica. É a ausência de motivação que marcaria suas ações.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Discursos 'tis': uma voz anônima na poesia épica

"Actual tis-speeches": assim Irene de Jong (cf. p. 63-4 no comentário à Odisseia) refere-se a um tipo de discurso que é posto na boca de "alguém" (tis) mas expressa, na verdade, "os sentimentos coletivos de um grupo". Esse tipo de discurso (geralmente não longo) encontra-se nos dois poemas; são 14x na Odisseia, 11x falados pelos pretendentes.

Aviso aos alunos de épica

Todas as noções formais e estruturais relativas à poesia podem ser encontradas no glossário do comentário narratológico da Irene de Jong; em relação à aula de hoje (D), por ex., estão lá, entre outros: ring-composition; parallel form; embedded story; simile etc. O comentário da de Jong, embora não seja exatamente jovem (a bibliografia que contém vai até 1997), é bastante informativo sobre tudo que se produziu antes. Além disso, as referidas definições são bastante claras e razoavelmente precisas.

Poesia e os pré-socráticos

A polaridade poesia x prosa e filosófico x poético parecem evidentes para nós ao pensarmos no corpus de fragmentos dos filósofos (lembre-se que ‘filosofia’ e ‘filósofo’ no sentido técnico, restrito, só começam a ser usados depois dos séculos em que esse sábios atuaram). Sobre as intersecções entre esses dois grupos, um texto bastante elucidativo é o seguinte:

MOST, Glenn W. (1999) "The poetics of early Greek Philosophy". In: LONG, A. A. (org.) In: The Cambridge companion to early Greek philosophy. Cambridge: Cambridge University Press

Oxyrhynchus e papiros

Oxyrhynchus foi uma cidade no Egito. A principal parte da cidade preservada em condições próximas do ideal até o século 19 foram seus depósitos de lixo. Os papiros preservados aí são restos de documentos e livros, além de listas de compras, cartas etc.

Mais infos sobre Oxyrhynchus e sobre a papirologia (uma ciência recente, da 2a metade do séc. 19) e papiros de forma geral, bem como cópias de papiros on-line, cf. nos sites abaixo:

http://www.papyrology.ox.ac.uk/

http://www.lib.umich.edu/papyrus-collection/select-bibliography-papyrology

terça-feira, 22 de março de 2011

Arquíloco: elegia / fragmento elegíaco 13 W

Nenhum cidadão, Péricles, para nosso luto dorido
     censurar, se deleitará com a festa, nem a cidade.
Pois desse jaez os que a onda do mar mui ressoante
     engoliu; inchados, com dor, temos
os pulmões. Mas os deuses para males incuráveis,
     ó amigos, estipulam vigorosa resistência
como droga. Ora um, ora outro está assim. Agora para nós
     voltou-se, e a ferida em sangue plangemos,
e outra vez atingirá distintos. Mas rapidamente
     resisti, afastando a aflição feminina.

Análises formais e estilísticas demonstram que esse fragmento compõe uma unidade muito bem construída; os dois elementos principais da elegia estão presente: a reflexão e, no fim, a exortação.

Isso não significa necessariamente que se trate de um poema completo. Se Faraone está correto no modo como postula a "estrofe" elegíaca, dependendo da ocasião de performance e do performer, o fragmento poderia ser citado como um poema integral ou integrado em uma composição maior.

FARAONE, Christopher A. (2005) "Exortation and meditation" CP 100
―. (2005) “Catalogues, Priamels, and Stanzaic Structure in Early Greek Elegy". TAPA 135: 249-266
―. (2008) The Stanzaic Architecture of Early Greek Elegy. Oxford: Oxford University Press